Crise sem precedentes divide o STF e Fachin dá prazo final nesta sexta para dois ministros se explicarem

Henrik Valdsen
Henrik Valdsen
9 Min de leitura

André Mendonça afastou o diretor-geral da Polícia Federal e Alexandre de Moraes pediu a investigação do colega; presidente da Corte aguarda respostas até 11 de setembro para decidir os próximos passos.

O Supremo Tribunal Federal atravessa, nos últimos dias, um dos episódios mais tensos de sua história recente, com dois ministros trocando acusações públicas e pedidos mútuos de investigação. O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, aguarda as explicações dos ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, também do Supremo, para decidir se leva a crise dos dois para julgamento no plenário, em sessão aberta ou fechada. A crise ganhou, na última semana, gravidade sem precedentes na história recente do STF, com a divulgação recíproca de relatórios comprometedores e pedidos mútuos de investigações.

O estopim: relatório sobre o Banco Master

Tudo começou a se intensificar quando o relator do caso Master decidiu tornar público um documento sensível produzido pela própria Polícia Federal. No desdobramento mais recente, Mendonça liberou para julgamento em plenário o relatório da Polícia Federal que indica relação de proximidade entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo dono do Banco Master e suspeito de praticar fraudes financeiras bilionárias e corromper autoridades públicas. A publicização desse material, até então sob sigilo, marcou a virada mais grave da disputa entre os dois ministros, que já vinha se arrastando havia semanas em bastidores.

Do outro lado, Alexandre de Moraes também apresentou munição para pedir a apuração do colega. Para embasar seu pedido, Moraes apresentou um relatório de inteligência da PF segundo o qual Mendonça poderia estar conduzindo as investigações do caso Master de forma tendenciosa, levando o vice-presidente da Corte a pedir formalmente que Fachin investigasse a atuação do relator do inquérito.

Mendonça revida afastando o diretor da PF

A resposta de Mendonça veio na forma de uma decisão liminar de grande repercussão institucional. Na manhã de terça-feira, dia 8, o ministro André Mendonça concedeu liminar para afastar de suas funções o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Ele também suspendeu a elaboração de relatórios de inteligência policial sobre ministros do STF, numa tentativa de blindar a Corte de novos documentos como o que embasou o pedido de Moraes contra ele.

A decisão não ficou restrita a Andrei Rodrigues. A ordem abarca produção, elaboração ou compartilhamento, mesmo que interno, dessas peças, e o ministro ainda estendeu a decisão para alcançar as apurações feitas pela PF quanto à atuação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ampliando consideravelmente o alcance da medida.

AGU recorre e Fachin pode intervir

A reação do governo federal ao afastamento do diretor da PF foi imediata. A Advocacia-Geral da União recorreu da decisão com o fundamento de que a liminar de Mendonça violou a competência exclusiva do presidente da República para nomear e exonerar dirigentes das entidades da administração pública federal, como a PF, prevista no artigo 84 da Constituição.

Diante do recurso, abriu-se caminho para uma intervenção direta da presidência da Corte. Como a AGU contestou a cautelar por meio de suspensão de liminar, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, pode cassar a decisão e submetê-la a referendo do Plenário. Juristas lembram que esse tipo de intervenção não é comum, mas tem precedentes em situações excepcionais, quando há manifesto interesse público ou grave lesão à ordem pública em jogo.

Pedido de vista trava o julgamento por ora

O caso chegou a ser levado à 2ª Turma do STF em sessão virtual extraordinária, mas o desfecho ficou temporariamente suspenso. O caso está sendo apreciado em sessão virtual extraordinária da 2ª Turma do STF. Até o pedido de vista, os ministros Nunes Marques e Luiz Fux haviam acompanhado o relator, formando maioria para manter a decisão de André Mendonça. Faltam votar Gilmar Mendes e Dias Toffoli, que pediu mais tempo para analisar o processo antes de proferir seu voto, interrompendo momentaneamente o referendo da liminar.

Prazo final nesta sexta-feira

O desfecho da crise depende, agora, de um prazo que Fachin deu aos dois ministros envolvidos diretamente no imbróglio. Antes de decidir, porém, Fachin deve aguardar até a próxima sexta-feira, dia 11, quando vence o prazo de cinco dias que deu para que Moraes e Mendonça se manifestem sobre as acusações trocadas entre eles. Só depois de receber essas explicações o presidente da Corte definirá se o caso será submetido a julgamento em sessão aberta, com ampla publicidade, ou fechada, restrita aos ministros.

Uma sequência de episódios em cadeia

A crise atual não surgiu do nada, mas é resultado de uma escalada que se acelerou justamente durante o período eleitoral. A decisão de Mendonça é mais um desdobramento da crise interna no Supremo Tribunal Federal, cuja fase mais recente foi iniciada em 1º de setembro, quando o relator do caso Master levantou o sigilo de investigações da PF que apontavam Moraes como parte de uma suposta rede de influência atribuída a Vorcaro. Dois dias depois, Alexandre levantou o sigilo de peças que constavam no Inquérito das Fake News indicando atuação tendenciosa e eleitoreira de Mendonça na condução das investigações, alimentando ainda mais o embate público entre os dois.

Gilmar propõe restringir presença de policiais nos gabinetes

Em meio à turbulência, um dos ministros decidiu propor uma mudança estrutural que pode reduzir episódios semelhantes no futuro. Gilmar Mendes formalizou uma proposta para impedir que militares das Forças Armadas e integrantes de carreiras policiais ocupem cargos comissionados ou funções de confiança nos gabinetes dos ministros da corte. A ideia nasce justamente da percepção de que a proximidade entre policiais e gabinetes de ministros pode ter contribuído para a produção e vazamento dos relatórios que hoje alimentam a crise.

Ministros aposentados cobram apuração rigorosa

A gravidade do episódio já chamou a atenção de figuras que passaram pela própria Corte. Ministros aposentados do STF pediram a Fachin uma apuração rigorosa e imediata dos fatos, reforçando a pressão institucional para que o presidente do Supremo não deixe o caso se arrastar sem uma resposta clara à sociedade. Esse tipo de manifestação pública de ex-integrantes da Corte é incomum e reflete a percepção, mesmo entre magistrados experientes, de que a disputa atual extrapola divergências jurídicas normais entre colegas de tribunal.

O que está em jogo daqui para frente

O desfecho dessa crise interessa a todo o país, não apenas ao meio jurídico. Além de decidir sobre o afastamento do diretor-geral da PF, o Plenário do STF pode ter que se posicionar sobre pedidos de investigação contra dois de seus próprios integrantes, em pleno período eleitoral. Enquanto isso não acontece, o país acompanha, em tempo real, um confronto que expõe divergências profundas sobre o controle da inteligência policial, os limites de atuação de cada ministro e o próprio equilíbrio interno da mais alta Corte do Judiciário brasileiro.

Fontes:
https://conjur.com.br/2026-set-08/decisao-de-mendonca-de-afastar-diretor-da-pf-pode-ser-suspensa-por-fachin-e-submetida-ao-plenario/
https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-09/fachin-aguarda-explicacoes-de-ministros-para-decidir-sobre-crise
https://conjur.com.br/2026-set-08/gilmar-pede-vista-de-referendo-do-afastamento-do-diretor-da-pf/

Compartilhe este artigo