Como o custo do dinheiro redesenha o mapa do crédito inadimplido no Brasil, com Felipe Rassi

Diego Velázquez
Diego Velázquez
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Felipe Rassi

O volume de crédito inadimplido em circulação no sistema financeiro não é constante ao longo do tempo. Ele responde diretamente ao comportamento da taxa de juros, que influencia tanto a capacidade de pagamento de famílias e empresas quanto o próprio custo de tomar novos empréstimos. Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, observa que compreender essa relação entre juros e inadimplência é essencial para quem pretende antecipar o volume e o perfil de carteiras que devem chegar ao mercado de NPL nos períodos seguintes.

Esse movimento não acontece de forma instantânea. Existe um intervalo entre a elevação dos juros e o momento em que essa elevação efetivamente se traduz em aumento da inadimplência, já que devedores costumam recorrer a estratégias de ajuste financeiro antes de deixar de pagar suas dívidas. Entender esse intervalo ajuda a explicar por que o mercado de crédito estressado reage com certo atraso às mudanças na política monetária.

Por que juros mais altos aumentam a formação de NPL?

Quando a taxa de juros sobe, o custo de qualquer dívida com taxa variável ou de qualquer novo financiamento aumenta proporcionalmente. Famílias e empresas que já operam com margens financeiras reduzidas passam a destinar uma parcela maior de sua renda ao pagamento de juros, o que reduz a capacidade de honrar outras obrigações. Esse efeito se acumula ao longo do tempo, e quanto mais prolongado o período de juros elevados, maior tende a ser o volume de créditos que migram de performados para inadimplidos.

Na perspectiva de Felipe Rassi, especialista jurídico no mercado de NPL, esse efeito não afeta todos os tomadores de crédito da mesma forma. Empresas e famílias com maior endividamento relativo sentem o impacto de forma mais intensa e mais rápida, enquanto tomadores com margens financeiras mais confortáveis conseguem absorver o aumento de custo por períodos mais longos antes de eventualmente entrarem em inadimplência.

O que acontece com o perfil dos devedores em ciclos de juros elevados?

Um aspecto frequentemente ignorado é que ciclos prolongados de juros altos tendem a alterar o perfil dos devedores que entram em inadimplência. Em ciclos anteriores, mais curtos, a inadimplência costuma se concentrar em tomadores já mais vulneráveis. Quando o ciclo se prolonga, devedores com histórico de crédito mais sólido também começam a apresentar dificuldades, já que o acúmulo de custo financeiro elevado por período extenso desgasta até situações patrimoniais inicialmente mais confortáveis.

Como os juros altos afetam o perfil dos créditos inadimplidos? Em ciclos de juros elevados prolongados, o perfil dos créditos inadimplidos tende a se diversificar, incluindo não apenas tomadores historicamente mais vulneráveis, mas também devedores com histórico de crédito mais sólido, cuja capacidade de pagamento se deteriora ao longo do tempo.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Esse cenário muda a composição das carteiras de NPL que chegam ao mercado secundário, exigindo que compradores especializados ajustem seus modelos de avaliação para refletir esse novo perfil de devedores, potencialmente com características de recuperação diferentes das observadas em ciclos anteriores.

Como esse movimento afeta o volume de operações de cessão de crédito?

O aumento na formação de crédito inadimplido, decorrente de um ciclo prolongado de juros elevados, tende a se refletir, com certo atraso, em maior volume de carteiras disponíveis para cessão no mercado secundário. Instituições financeiras, ao acumularem volume crescente de créditos inadimplidos em seus balanços, enfrentam pressão regulatória e financeira para provisionar esses valores, o que aumenta o incentivo para vender essas carteiras a compradores especializados.

Como aponta Felipe Rassi no campo da governança de crédito estressado, esse aumento de oferta pode, em determinados momentos, gerar pressão para baixo nos preços negociados, já que compradores especializados passam a ter mais opções disponíveis simultaneamente. Esse equilíbrio entre oferta e demanda é uma das dinâmicas mais observadas por quem acompanha de perto os ciclos desse mercado.

O que acontece quando o ciclo de juros se inverte?

Quando o ciclo de juros se inverte e as taxas começam a cair, o efeito sobre a formação de NPL costuma ser inverso, mas também com certo atraso. A redução do custo do crédito melhora gradualmente a capacidade de pagamento de famílias e empresas, reduzindo o fluxo de novos créditos que migram para a inadimplência. Esse movimento, no entanto, não reduz instantaneamente o estoque de créditos já inadimplidos, que continuam exigindo processos de recuperação independentemente do novo cenário de juros mais baixos.

Felipe Rassi, analista de mercado de ativos estressados, reflete que essa defasagem entre a mudança do ciclo de juros e seus efeitos completos sobre o mercado de NPL é um dos motivos pelos quais compradores especializados costumam manter horizontes de análise mais longos, em vez de reagir apenas ao cenário econômico imediato de cada momento específico.

O que essa relação ensina sobre a leitura macroeconômica do mercado de NPL?

Acompanhar o ciclo de juros não é apenas uma tarefa de economistas distantes do mercado de crédito estressado: é uma ferramenta prática para quem pretende antecipar volume, perfil e precificação de futuras carteiras de NPL. Cada fase do ciclo redesenha, de forma previsível, ainda que defasada, o mapa da inadimplência no sistema financeiro.

Como elucida Felipe Rassi, compreender essa dinâmica é o que diferencia compradores que se antecipam de compradores que apenas reagem ao mercado conforme ele se apresenta em cada momento. Ler o ciclo de juros com atenção é, portanto, parte integrante de qualquer estratégia consistente de atuação no mercado de crédito estressado brasileiro.

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