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A família pode ser um dos maiores obstáculos para sair de um relacionamento abusivo, avalia Taiza Tosatt Eleoterio

Henrik Valdsen
Henrik Valdsen agosto 14, 2024
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6 Min de leitura
Taiza Tosatt Eleoterio

A família costuma ser vista como o primeiro refúgio diante de qualquer dificuldade, mas, quando o problema é um relacionamento abusivo, esse mesmo núcleo pode se transformar em um obstáculo real para a saída. De acordo com a especialista em saúde mental e relações familiares, Taiza Tosatt Eleoterio, pressões veladas, expectativas de manutenção do casamento e o medo de desestruturar a rotina coletiva pesam sobre quem já vive um cenário de controle e violência.

Contents
Como a pressão social da família mantém o vínculo abusivo?A dependência que sustenta o relacionamento abusivoNegação: Por que a família nem sempre reconhece o abuso?A defesa da unidade familiar a qualquer custoReconhecer o papel da família é o primeiro passo para a mudança

Ademais, a dinâmica familiar interfere diretamente na forma como a vítima interpreta o próprio sofrimento, criando barreiras que vão da pressão social à negação do problema. Pensando nisso, a seguir, abordaremos como pressão social, dependência, negação e a defesa da unidade familiar se combinam nesse cenário e como reconhecer cada um desses mecanismos na prática.

Como a pressão social da família mantém o vínculo abusivo?

Muitas famílias reforçam, ainda que sem intenção, a ideia de que separar é sinônimo de fracasso pessoal. Comentários sobre o esforço de manter o casamento, comparações com outros parentes ou insistência em preservar a aparência de estabilidade acabam empurrando a vítima de volta para dentro do relacionamento, mesmo quando ela já reconhece o abuso.

Inclusive, esse tipo de pressão raramente se apresenta como ordem direta, mas como sugestão repetida, o que a torna mais difícil de identificar e contestar. Assim, com o tempo, a vítima passa a antecipar o julgamento da própria família e evita relatar episódios de violência para não enfrentar mais essa cobrança, como pontua Taiza Tosatt Eleoterio.

A dependência que sustenta o relacionamento abusivo

A dependência financeira e emocional é um dos fatores mais concretos que prendem alguém a um relacionamento abusivo, e a família pode reforçar essa condição sem perceber. Quando o agressor também é provedor da casa ou quando os filhos frequentam a mesma escola há anos, o núcleo familiar tende a evitar qualquer ruptura que ameace essa estrutura.

Isto posto, romper um relacionamento abusivo exige recursos práticos, moradia, renda e apoio para os filhos, e a ausência desse suporte familiar concreto transforma a decisão de sair em um risco quase inviável. Segundo Taiza Tosatt Eleoterio, por isso, o discurso de incentivo à separação perde força quando não vem acompanhado de ajuda real.

Negação: Por que a família nem sempre reconhece o abuso?

A negação costuma surgir antes mesmo da vítima pedir ajuda. Familiares que conviveram com o agressor por anos tendem a minimizar relatos de controle ou agressão, atribuindo o comportamento a ciúmes, estresse ou desentendimentos pontuais do casal. Essa leitura equivocada retarda o reconhecimento da violência e adia qualquer movimento em direção à saída.

A especialista em saúde mental e relações familiares, Taiza Tosatt Eleoterio, avalia que a negação também protege a própria família de encarar sua parcela de responsabilidade, já que admitir o abuso implica reconhecer sinais que passaram despercebidos por muito tempo. Esse mecanismo de defesa coletivo mantém a vítima isolada justamente no momento em que mais precisa de apoio.

A defesa da unidade familiar a qualquer custo

A ideia de preservar a família unida, especialmente quando há filhos envolvidos, costuma se sobrepor ao bem-estar individual da vítima. Esse discurso aparece de formas diferentes, mas seu efeito prático é sempre o mesmo: transformar a permanência no relacionamento abusivo em um sacrifício supostamente nobre. Tendo isso em mente, entre as frases mais recorrentes nesse contexto estão:

  • Aguenta mais um pouco, pelos filhos;
  • Toda relação tem seus altos e baixos;
  • Você vai destruir a família se sair agora;
  • Pense no que as pessoas vão pensar.

Essas falas raramente vêm de má intenção, mas reforçam o silêncio e atrasam a busca por ajuda especializada. Conforme frisa Taiza Tosatt Eleoterio, romper com essa lógica exige que a própria família reconheça que a integridade da vítima deve vir antes da manutenção da estrutura familiar tradicional.

Reconhecer o papel da família é o primeiro passo para a mudança

Entender como a família participa desse ciclo não significa culpabilizá-la isoladamente, mas reconhecer que pressão social, dependência, negação e o culto à unidade familiar operam juntos e se retroalimentam. Cada um desses fatores, sozinho, já dificulta a saída de um relacionamento abusivo, e combinados tornam o processo ainda mais lento e doloroso. Dessa maneira, famílias que conseguem oferecer escuta sem julgamento, apoio prático e disposição para rever crenças enraizadas se tornam parte da solução, e não do problema.

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